sexta-feira, 2 de agosto de 2013

A Magreza

A magreza doía nos olhos de quem o olhasse. Era pontuda, ossuda e apática.  A magreza dele agia muito mais do que em seu alongado corpo esbranquiçado; ela estava em sua alma e em suas palavras. E mesmo que tentasse comer muito, o germe que residia dentro de si e em todos os poros, sugava-lhe as forças, as expressões. Os olhos do pobre esbugalhavam-se na face demarcadamente pálida.
Não poderia ser considerado feio, porém, nunca jamais belo. Ele era uma coisa que se mostrava por dentro, algo rasgado desde as entranhas até o que se via por fora. Era um ser pelo avesso e, até suas veias enrugadas eram magras. Sem nome, ele era um pedaço de massa e, mesmo magro, era pesado na superfície. Deixava sulcos profundos por onde pisava, não tinha muito jeito para a leveza. Era cansativo olhar para ele – ele que era tão magro que a própria fome não podia atingi-lo.
Suas mãos encarquilhavam-se não pelo tempo, mas por sua monstruosa inópia. Pela vida, não vivia, no entanto, perambulava seco, árido, faminto, ressequido de vontades e magro. Sua boca era uma cicatriz, ao invés de lábios. Seus olhos sem pupilas dilatas, não tinha cor – tinha magreza. Era, de súbito, um pedaço de coisa inócua que queria ser nefasto, mas que não provocava nada a não ser comiseração.
Por sua magreza. Pela falta de ser, não tinha expressões; era seco de sentimento. Pois, no solo de seu coração, não se plantava nada mais do que vermes. E os vermes da magreza nutriam-se de sua falta das coisas – estava putrefacto, contudo sempre muito, muito magro. As belezas etéreas nunca o atingiam, porque logo tornavam-se mortas, emaciadas. Não podia dizer que tinha uma pele, acreditava-se mais entende-lo que revestia-se através de uma couraça purulenta e forte. Enrugada, sem pelos que se caia sem vontade pelo corpo. Não se parecia com nada, nem com as pedras.
Queria apenas a fome que o mantinha no fio entre algo e nada. Queria, apenas, sua magreza que tornava-se doença e, logo, sua couraça. Permanecer comendo, comendo, comendo e morrendo de fome todos os dias. Sentia-se viúva negra, logo muito esquelética e medonha, logo muito ressequido, de natureza tépida, incontrolavelmente faminto pela vida, pelo seu eterno limbo de ser.

Por fim, jamais morreria de magreza mórbida. Morreria, antes, de uma fome jamais saciada – era a fome de si. 

sábado, 20 de abril de 2013

Inside





Alvo e pleno. De repente, um sono que não tinha mais fim e, depois... Depois a sublimação de si. Antes de qualquer coisa, era livre, tinha pernas, sentia a força física, o cheiro do ar. Antes do sono, sabia que era homem feito, alto e ruivo daqueles que usam barba cerrada e tem todo um charme intelectual. Era homem.
Então, um dia, em sua cama, aquele peso nos olhos transformou-se em inconsciência e ele não pôde relembrar-se de sua infância, como sempre pensou em fazê-lo. Não pôde relembrar dos rostos queridos ou ouvir as canções que mais gostava. Não podia, enfim, escrever um bilhete. Sua paralisia era de dentro para fora, no entanto, imaginava-se flutuante e feliz, porque quanto mais inconsciente e flutuante, mais aquela agudez que lacerava-lhe o peito diminuía até torna-lo escultural, tal qual seus poetas favoritos bem descreviam aqueles anjos marmóreos.
Mas nada daquela rigidez poderia acompanha-lo.
De um sonho, ele, consciência ainda humana, viajou em outro sonho de luzes que cegava-lhe metaforicamente. Ele sentia ser ora um pássaro, ora apenas uma mistura com o vento – lá ao longe é que ouvia gemidos, mas seguia e seguia e seguia... Como num sussurro.
Ele perpassava qualquer matéria, não havia nada mais suave que seu toque. Ao cair, deixava-se livre e destemido, limpo de qualquer sentimento terreno, era apenas queda livre do topo da montanha.
E braços, mãos e mantos o acomodavam como num abraço sem fim, atingindo-o não na pele, mas no ponto onde havia antes um coração. Havia uma mente que processava, mas o cérebro ficara para mais demonstrações. O próprio lugar em si era tenro e gentil, cheio e ao mesmo tempo vazio, sem densidade, sem paixões, sem gravidade – contudo, livre. Em cada pequeno espaço, havia uma presença que parecia ser algo tão vivo que quase podia tocar.
Depois eram só vozes, quase sem rostos que lhe mostravam sem mágica uma história, uma vida e muitas, muitas saudades que arrancavam pedaços de outros corações que ele sentia recordar cada um com mais e mais intensidade. O desespero o tornara menos fluido, porém, logo a mão invisível fez uma caridade em sua dor e a deixou dissipar-se até tomar a forma de uma rosa branca – já era oração.
Sobre si, tinha pouca memória de homem, de cor, de corpo. Sabia que agora era alma e coração em palavras e ações. Quanto mais percorria, mas queria ficar. Eles que não tinham nome que pudesse ser escutado e entendido, um rosto a ser decifrado apenas falavam para dentro da mente:
- Vai, que há caminho longo – diziam de qualquer lugar.
Ele, que nem nome queria, dizia:
- Voltar não consigo, é por demais doído.
Tudo o que ele sentiu sobre as últimas palavras, mas nunca as finais, era um sorriso.
- És o que és e nada mais. A cada obra, uma missão.
“Não tardarás...”. Era um pensamento vivo e sussurrado.

-

Cinco minutos.
Parada cardíaca, acidente cardiovascular, coma. Era ele toda uma extensão rígida, fria e bela no leito. Olhando de cima, conseguia ver todo seu eu como uma pintura, talvez até rápido borrão. E então...
- Um, dois, três – respiração boca-a-boca.
- Ainda não respira! Desfibrilador! – Gritava o médico. – Outra vez!
O som era doloroso.
- O perdemos... – dizia o médico. – Horário do óbito as 18:50... Você – interrompeu o monólogo numa voz cansada e vencida – chame a família.
Um vórtice o puxou e todas as sensações humanas eram dele novamente. Novamente, a paralisia. Antes o bipe era linear e sem interrupções. A sala ficou vazia, a aparelhagem desligada, apenas uma presença coberta completamente por um lençol. Lá fora, vozes abafadas.
- ... Sentimos por sua perda...
Não era sonho.
- ... A parada cardíaca foi fulminante... Seguido de acidente cardiovascular...

-

De repente, voltara a respirar num surto. O susto arregalara seus olhos e o fizera enxergar sua nudez, seu corpo, sua palidez e suas dores. Voltara a ser homem.
George, 32 anos, publicitário.
E o sonho que tivera o fizera acordar de supetão. Tocou-se, beliscou-se, pulou da cama, saltou e até fez umas flexões. Olhou de lado e dissolveram-se as paredes do hospital, as vozes e o desfibrilador doloroso. Era George e, para ter certeza, disse seu nome em voz alta.
- George! Que Deus me livre!
George, olhando o relógio já cansado e com severas olheiras, fechou o livro sobre experiências espirituais e voltou a dormir, porque amanhã era outro dia de trabalho.