sábado, 24 de novembro de 2012

 
"Quando a areia movimentou-se pela primeira vez à minha mente a brisa repousava. O pensamento nada construía a não ser cotidianidades perversas. As línguas que se moviam me soavam parecidas com prosas peculiares. Os dias nada mais eram que migalhas que o Senhor distribuía por causa do tédio e piedade divina; e o aproveitamento era feito com má vontade apenas para contribuir com o andamento natural.
Pela primeira vez eu sentia algo desigual, à minha vida o óbvio ainda imperava em contínuos segundos métricos, porém, os ponteiros pareciam desregular-se grau a grau. O sopro chegou estranhamente no mato que cercava minha ilha de maneira desigual aos outros passados. Algo sobrenatural se sucedia quando o anum soou seu grito.
O café ainda era o mesmo , e as expressões familiares. Nada de estranho se passava no covil. Aliás, todas as batas eram iguais, tirando as novas com almas recém-chegadas. Isso era apenas mais um bando com crenças afloradas e cabeças confusas. Passaram rapidamente pelo corredor com olhos girando pelas telas nas paredes. Em pouco tempo pude ver o céu limpo entre todas as nuvens negras.
Passadas algumas horas fui ao salão principal acompanhar a cerimônia de apresentação do novo grupo. Ele era maior do que eu tinha notado. Talvez a distração me tivesse cegado por alguns instantes. Enquanto a cerimônia se desenrolava, minha visão buscava o céu que tinha avistado mais cedo. Não demorou muito até ouví-la apresentar-se como Maria. Sabia que os olhos de céu não me eram estranhos. Com certeza era a própria em minha frente, naquele momento me tornava mais devota."
 
Por Ronaldo Santos