domingo, 25 de dezembro de 2011

História de amor entre um tapado e uma brutamontes


Ela treinava kung fu, fazia capoeira, era atlética e adorava uma boa briga. Todo o dia corria 2 km e depois corria para a faculdade. Ninguém se metia com ela. Era o protótipo da mulher independente, destemida e sem lei – nenhum homem colocava freio nela. A própria Julia jurava que jamais se apaixonaria. Tolice. Preferia viver sozinha a ter que aturar um idiota que bebesse, jogasse futebol e tivesse aquela barba horrorosa espetando o rosto delicado que tinha, embora não aparentasse em nenhum momento tanta suavidade.
J. Era assim que costumavam chamar o cara mais nerd e atrapalhado daquela empresa. Ele construía computadores, programava e hackeava até o melhor dos hackers. Nos fins de semana, sentava no sofá mais macio do AP apertado com um pote de sorvete de chocolate com passas e jogava God Of War, Legendary Of Zelda, Need For Speed e muitas outras porcarias. Não tinha vida social, além do Facebook. Era o melhor aluno do curso de Ciência da Computação e ainda queria fazer Engenharia Elétrica – respirava matemática, mas não amava ninguém por que sua nerdisse, seu comportamento de E.T., suas síndromes de M.B.M.O. (Mulheres Bonitas Me Odeiam) o atrapalhavam em seus romances catastróficos. Apesar de tudo, era um cara coração.
Julia fazia seu treino habitual pela manhã pensando nos trabalhos e seminários. J. de Jacob, fazia vinte e cinco coisas ao mesmo tempo no computador. Um dia de chuva e sol, poças de água suja e um clichezão de filme de comédia romântica, Julia estava esperando seu ônibus, irada por estar molhada e atrasada para a faculdade. Do seu lado, um estranho de óculos redondos iguais aos do Harry Potter esperava um ônibus para ir trabalhar enquanto pensava em um terrível cálculo de matemática que jurava ele que seria sua namorada, mas por enquanto estava difícil de conquistar.
Nem um nem outro percebia ambas as presenças. E muito menos que seus corações solitários e tão decadentes quanto à melancolia daquele dia que chovia e irradiava de brilho pelo sol, estavam conectados até as últimas células de suas almas. Fosse por que nenhum queria se apaixonar ou por que sentiam que era só mais um dia não se olhavam. Não se queriam. E muito menos pensavam em virar a cabeça.
Tudo era tão perto... Às vezes a gente até reclama que tudo demora sempre, o amor não existe e bla, bla, bla.
O ônibus chegou tão lotado que os passageiros estavam em cima do teto. Eles soltaram um audível “Isso é um saco”. Julia ainda disse um palavrão que assustou o cara do lado. O Jacob. Os óculos dele até ficaram tortos quando ele olhou aquela criatura encantadora ser tão grossa. Ele pensou que ela seria perfeita. Deu um sorriso de otário e tentou concordar com a moça. Julia voltou sua atenção para o celular e olhou as horas. Jacob até tentou articular uma frase, mas sua síndrome atacou de vez, por que ela era muito mais bonita do que as outras.
Julia espiou de lado e viu um panaca molhado com um sorriso estranho nos lábios, uma barba serrada, óculos redondos e um tom de vermelho espalhar pelo rosto do cara. Ela deu outra olhada. Piscou a água. E olhou de novo. Respirou fundo e disse que preferia correr. E foi o que ela fez. Ela correu. Mas foi de medo.
Entre um vai e volta do mundo, encontramos as respostas de nossas almas envelhecidas. E nossas saudades mais absurdas são dissipadas quando nossos corações alojam o amor. E se você entender que o precipício é apenas uma parte do caminho, seu medo será muito pior – a não ser que você se lembre que não há nada que o amor não cure. E perdoe. Remedie. Destrua. Renasça. Renove.
Julia se lembrou durante muitos dias o carinha do ponto de ônibus. Jacob desenhava o rosto dela com um sorriso gigante. De dia, ela corria, estudava e treinava; de noite, ele jogava e sonhava acordado. No trabalho, ele pesquisou por vários lugares alguém que fosse parecida com ela. No treino de kung fu, ela se pegou suspirando enquanto dava o último poderoso soco no adversário. Ele tomou um grande gole de café pensando no quanto ela era estonteantemente linda e harmônica. Chamou-a de “Princesa” para que ela se tornasse real. E ela? Bem, ela preferiu lembrar dele como o “Estranho do Ônibus”.
Em um dia quente, Julia vinha com a mochila em um lado do ombro, fones e um sorvete quase derretido. J. vinha apressado e atrapalhado pela rua, por que tinha uma reunião importante. Mesmas ruas e quase os mesmos passos. Até que um carro veloz que passou por aquele lugar bateu em outro carro e isso atraiu a atenção de todo mundo; J. e J. andavam sem prestar bem atenção em que ia e quem vinha. Trombaram-se com tanta força que deu dor de cabeça. Julia viu a blusa preferida suja de calda de morango – isso a deixou uma fera. Jacob estava tentando se lembrar do próprio nome, quando sentiu uma mão forte agarrá-lo pelo colarinho da camisa.
Os dois se olharam por um momento – mas o punho de Julia estava apontado para o queixo do rapaz. Ela afrouxou a mão; e ele tremeu dos pés à cabeça.
 - Você? – Disseram juntos.
Esqueceram a aula, a reunião e todo o resto do mundo concentrado no acidente. Ninguém se machucou, por que o cara bateu em um carro vazio – só cortou a cabeça e quase saia álcool ao invés de sangue – mas isso era só um detalhe do dia. O dia do acidente. Acidentalmente uma paixão. O meu amor – dizia ele. Só um imbecil – dizia ela.
Mais tarde um café perto do trabalho de Jacob. Uma troca de beijinhos de comprimento. Depois, uma blusa nova e outros sorvetes. Me dá seu telefone. Ah, aqui o meu. Encontraram-se mais outras vezes e um dia, depois de uma luta na academia, Jacob ficou de encontrar Julia suada e descabelada ainda vestida com o kimono. Ela o convidou para acompanha-la até o ponto do ônibus que os separava.
No meio do cinza da cidade, o azul pálido do céu e o frio suave a desculpa dele era retirar uma folhinha do cabelo dela. E por que você se aproximou tanto de mim? A barba serrada fazia cócegas agradáveis e o cheiro dela era de rosas. Jacob repuxou os lábios rosados de Julia e pela primeira vez, ela sentiu-se indefesa e com o coração na mão. Deus até bateu palmas – Jacob cometeu seu primeiro ato de coragem de toda a vida. E Julia, o primeiro ato de medrosa.
E por toda a vida ele viveu nerd e ela perigosa. Ela o amava por ele ser aquele estranho de óculos iguais aos do Harry Potter; e ele, por ela sempre ter sido sua princesa encantada. Quem sabe dizer se viveram felizes para sempre? Mas o fato é que viveram, amaram e continuaram. Um completava o outro até no que eles não queriam. Ele corria de medo das aranhas; e ela não sabia recusar os beijos dele. Mas era ainda muito mais que isso.

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