domingo, 22 de maio de 2011

Amores de outrora

Sabe... Assim, eu estava cansada. É, eu estava tão cansada de andar pelas mesmas ruas empoçadas, de olhar para o mesmo céu, ver o mesmo dia e fazer as mesmas coisas que eu me cansei da tranqüilidade estúpida de acordar-e-dormir do mesmo jeito. Todos os dias, depois do meu café das quatro da tarde eu saia terrivelmente calma e ia para aquele lugar secreto que eu tinha só para mim, para pensar e repensar nas mesmas notícias do meu jornal surrado – eu ouvia aquelas músicas melancólicas sem sentir nada.
Eu estava cansada de me sentir vazia e solitária, de ser eu e de gostar de ficar presa no mesmo lugar de sempre. E acho que em um dia desses aí quando eu estava sem fazer nada de mais interessante depois de ler meia dúzia de textos que não me deixaram mais viva, refiz o meu caminho e recontei meus passos para ver se era mais interessante perder um pouco do meu tempo de sobra. Acho que um lampejo de luz tragou imediatamente minha curiosidade absurda – era óbvio que eu precisava de algo que me impulsionasse e, sem pensar, olhei diretamente nos olhos daquele rastro de luz.
Você caminhava tão lentamente quanto eu. Ah, é um clichê dizer que você estava exatamente igual a mim, nas mesmas condições de espírito, quem sabe, e até tão solitária e irritantemente refazendo o próprio caminho. Dizem que duas almas especiais são devastadas antes de se encontrarem, para que os campos de seus corações cinza se encham novamente daquela magia renovadora do amor meigo e infantil entre duas pessoas completamente conhecidas e sem rastros de memórias de ambos os rostos.
Verdade. Eu devo ter te encontrado em pé de igualdade. Mas quem sabe? É, quem sabe se você não concorda comigo?
- Ei! Pára! – Gritei confusa para você.
- Hum? – Você me olhou de um modo vívido e curioso, indo embora sem mais palavras.
Eu sei que nesse momento você deve ter sentido a mesma pontada invisível que passou bem rápido na alma. Não sentiu? Ah, eu sei que sim. Eu sei por que no outro dia eu sai de propósito para saber se você estava por ali, e então, ao te ver eu só disse “Boa tarde” e você sorriu lindamente em resposta e me deu uma estranha vontade de ouvir “I Love You” de Celine Dion e sair cantando um pedacinho do refrão “I love you, please say ‘I love you too’”. Também clichê – mas nada é como Sweet November, nem nosso romance, por que nada é igual e nós somos criaturas muito criativas para isso.
Eu sei. Todo caso de amor é clichê – e há alguns verdadeiros. E de novo eu voltava para te ver e, talvez até você também fosse para o mesmo lugar para me ver. Permiti me iludir, por que acreditei que a força do meu pensamento me traria você. Claro que depois de alguns encontros, de uns “Ois”, sorriso ali, conversas, pequenos abraços, um beijo no seu rosto e outro no meu a gente se define melhor. Uma tarde de filme romântico do jeito que você gosta e o meu coração que sente precisar, pipoca quase queimada, guaraná gelado, uma chuva mais gelada ainda e a coragem de se jogar na piscina do condomínio em plenos relâmpagos e trovões eu te olhei daquele jeito – não clichê – que toca meu coração e sem querer - é foi sem querer – me apaixonei pela trilionésima vez por você. Ai, eu acho que fiquei tão caída, que me senti como uma mulher indefesa frente a frente com um enorme abismo que ainda será descoberto. Mas eu não sabia que eu podia me apaixonar. Quis tomar um gole do meu café forte para esquentar o frio interno do meu corpo quando te vi tão inocente, na hora em que teu olhar encontrou o meu quase que por engano e aquela luz humana me deu fé para acreditar novamente. Eu quis me esquentar por que eu tremia por dentro por querer te ter e tive medo de tocar sua mão roxa de frio também – eu sabia que você também precisava de mim.
- Quer vir dormir comigo hoje? – E senti a inocência daquela pergunta sem nenhuma vontade de cometer mais do que aquilo.
- Claro – Outra resposta sem palavras melhores...
“Não há de ser nada” foi o primeiro pensamento que me ocorrera. Você me queria também. Mas queria a minha presença para sanar teu medo de solidão – e eu te daria isso mil vezes se preciso fosse, para que eu também não morresse de solidão. Uma conversa franca sobre nossas convicções, sanduíche de queijo, roupas de dormir e a timidez de estar no seu espaço sentindo o cheiro da sua presença única. Nós combinávamos como as estrelas combinam com suas luzes – tínhamos a mesma essência na alma.
Depois que me deitei na cama próxima a sua, fiquei te olhando no escuro e senti outro medo importuno. Mas não quis ultrapassar a barreira de dois lençóis que estavam entre nós – você teve que ter mais coragem que eu para inventar uma desculpa de ah eu estou com frio, para retirar a pequena barreira e nos cobrir com o mesmo lençol. Para chegar mais perto, para conversar comigo bobagens e me distrair de sua mão que segurava a minha, migrando para o meu cabelo transformando a brincadeira boba em carícias, afagos e cafunés com perigosas chances de me deixar completamente atormentada de sentimentos. Aquele frio interno me invadiu outra vez e fez tremer meus ossos; suas pernas condoeram-se dos meus calafrios espasmódicos e quebraram as minhas próprias regras de “não ultrapasse tanto”. Eu tive medo que você quisesse só a minha amizade e não quis pensar em nada a não ser na sua tentativa de me deixar mais confortável, se suas palavras sussurradas ao meu ouvido não tivessem tido o efeito contrário: me deixar tentada a te beijar nem que fosse o último e pior engano que eu tivesse cometido na minha vida toda.
E tentar, a gente sempre tenta. Eu tentei. Eu tentei mais ainda por que eu te quis... E eu te quis tanto, tanto, mas tanto que por um momento enlouqueci e perdi a linha do pensamento por provar dos longos suspiros que o seu querer dava ao retribuir com tudo o que tinha o meu beijo. Continuei a te querer por que sua humanidade é respirável, e por que sua luz é grande, por que seu coração cabe no meu – você se encaixa em mim e não deixo de me espantar por isso.
Quem é você?
Eu nem sei se te amo. É uma psicose ficar me perguntando... Esquece, deixei para lá por que voltei a me importar com os dias, com as nuvens, o céu, as músicas (eu baixei novas e dentre elas, as suas preferidas). Voltei a escrever e o passado... Meu passado ainda me dói, mas você é como uma salvação que está limpando a necrose do meu coração – me faz gostar de ouvir coisas antigas e românticas, me faz sentir disposição de levantar às cinco para ver o nascer-do-sol, de escrever mensagens secretas no celular para te mostrar depois. Andei ouvindo até Whitney Houston...
Não sei o que pensar de você, por que meu pensamento exige uma complexa organização e agora, depois que encontrei a parte importante do quebra-cabeça preciso de um tempo para organizar minhas peças. Só sei até agora que você é a chave perdida que acabei de encontrar e devo fazer o favor a mim mesma de guardar cuidadosamente no meu cofre mais secreto: dentro do meu coração. E do fundo do meu coração – ou como você diria, do fundo do meu encéfalo – eu te quero sem nem pensar se esse tempo será para sempre ou não, sem pensar em um limite, uma validade. Só nas palavras “eu quero você” que não têm um fim nelas mesmas. Você. Te. Quero. Tá? Te quero.
Hoje, andamos de mãos dadas para apreciar aquele lugarzinho só nosso... E não quero pensar em mais nada só para estar com você – e isso já dá muito no que pensar. 

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