sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Incoerência

Escuta. Escuta, eu já disse que hoje passou. Passou, não retornará.  Mas por onde andei eu sabia que não seria bem assim – mas já me perdi. Eram dois compassos, um estava morto e o outro me enganando que viver era bom.
Viver. Lembra o que é viver? O nexo existe? Onde foi parar o eu? O eu... O eu morreu. Eu morri. Renasci. E morri de novo – é uma constância. De novo e de novo estou vivendo e morrendo, renascendo. Preciso quebrar o invólucro de mim, de hoje, de agora – acabei de renascer e tenho medo de olhar para fora. Eu preciso parar de ter medo, mas tenho por que sou humana, sou tão humana quanto a mulher que vejo no espelho: sou eu no espelho.
Eu, ser, matéria, carne, ossos, alma... A alma... A minha alma. Esfacelada, meu amor, ela está esfacelada. Por dentro eu estou deserta, como o deserto da Líbia. Disseram-me que eu teria esperanças e descobri que a esperança é uma ilusão fantasmagórica do desejo de ser, e se deseja ser, se deseja. E se se deseja, se ilude por que a ilusão é uma tolice, mas é doce e se eu entrar nela corro o risco de nunca mais sair, por que a ilusão é um gozo viciante.
Eu estou completamente perdida como se estivesse há muito tempo sem dormir. Eu estou avulsa, ao vento, a mercê das minhas palavras indescritíveis e sem sentido – por que a vida de hoje é sem sentido. É pessimismo? Não. É realidade. E eu sou real, eu sou eu, sou a vida, sou a consciência de mim mesma, sou isso... Sou isso... E isso, sou eu. Meu amor, estou caminhando pelo vale escuro e dentro de mim tudo é escuro, é perdido, é perigosamente abissal; meu coração está ali, ou não. Ele se foi, mas se procura e eu me procuro, estou em busca de mim, da alma perdida, do coração perdido.
Eu me fui. As minhas lágrimas grossas empoçam meus olhos e embacia minha visão, eu quero chorar, mas elas não caem – e não há tortura pior que querer chorar e o bolo cobrir a garganta, empurrando dentro da carne a dor. A dor é cruel, ela me invade os nervos e me faz debruçar sobre o mar da inconsciência neutra do meu eu perturbado. A dor é divina, ela me limpa até os ossos, até os recônditos mais profundos do meu ser perdido – meu eu perdido.
Eu. Eu. Eu. Sozinha em um lugar de ninguém, morta e viva, sinto tanto frio que meus pêlos se eriçam e eu tremo, mas o frio não é externo – é interno como um verme que corrói as carnes do ser. Eu sou tão humana que tenho medo, e tenho tanto medo que sei que vou me viciar no comodismo por ter medo. Para onde fui? Será que o que sou é real em mim? Eu sinto o que eu sinto? Ou sinto o que desejaria sentir? O desejo também é uma ilusão, como toda a esperança também é uma ilusão é uma desigualdade de sentidos, é um nada, uma paz utópica – o desejo me põe medo por que eu sei que me viciaria em desejar, eu desejo desejar, por que já estou desejando.
Será que a chuva fria que bate no meu corpo me dói mais do que a dor da minha alma perdida? A solidão que sinto me deixa a mercê dos devoradores de alma, eu preciso de um lugar, um dia, uma solidão e muitos pensamentos que irão rodear minha mente e pintar meu cenário. O meu cenário é visto como quando eu era criança, modificado sob minhas circunstâncias, meu prazer, meu desejo e ilusão infantil, ninguém me negava nada, eu era mais inteligente e viva do que sou hoje, eu sabia que tinha que andar, mas era mais saudável por que não me perguntava o porquê de ir – no fundo eu sabia e não arriscava a minha vida por querer saber o que eu precisava saber; eu nem achava que precisava. Eu era mais eu, tinha mais inconsciência e mais sabedoria da minha existência. Ninguém me perguntava por que eu era tão incoerente em mim mesma, ninguém me olhava com cara de espanto – eu era tão pura e tão feliz que ninguém se incomodava de partilhar daquela felicidade.
Meu coração de criança era mais amoroso e amava tanto que não me enlouquecia – e hoje meu amor, estou enlouquecida aos 19 anos. Mas eu me sinto aos 19 anos tão velha e tão cansada que nem parece que um dia fui tão criança assim! Parece que sempre fui aos 19 anos, esse eu de hoje, essa mulher jovem de hoje, mas sou velha e me engano achando que sou jovem. Sou velha. Sou mulher. Sou humana. E ter consciência de mim mesma é me perder, é ser inconsciente, é desejo consciente – e isso eu não quero, por que tenho medo do que descobrirei, mas já estou descobrindo.
É como um poço sem fundo, quanto mais cavo mais terra tem – eu sou um ser limitado e dentro da minha limitação há uma ilimitação de sentimentos, de eus, de muitas vidas, muitos renascimentos e toda uma história. Toda uma história. Todas as mulheres. Várias mulheres. E amor. Tanto amor, meu amor... É difícil, é muito difícil. Veja o quanto eu sou eu e não sei o que sou. Por que tanto pavor? Ah, eu tenho um horror ao que é eu que vivo querendo fugir da verdade implacável: Deus.
Deus é Ele todo poderoso que vive em todos os lugares, mas ele não é o mal. Ele é o bom. Deus está ali e me encara e sabe que eu não vou entender nada, assim como não entendo nada do que escrevo. Eu não me entendo... Eu amo. E não entendo. Não entendo a vida, mas nem sei por onde começar a entender, meu caminho se perdeu eu me perdi e não sei como nem quando eu me perdi na minha própria estrada. Estou no meu terreno, mas tão perdida quanto às ovelhas desgarradas dentro do cercado – eu morri de novo.
Renasci. Respirando lento... A vida, a vida toda em mim... O que sou eu? Se fosse tão fácil assim, é só puxar minha ficha no Orkut. Nem eu sei o que é saber de fato. Não. Não... Meu amor, eu preciso de calor humano, eu preciso dos seus lábios e da segurança do teu abraço para saber que estou aqui, fixada no chão – as nuvens, oh, como tenho medo de cair... É alto demais para mim. Meu amor, vê como é tudo isso? Meu amor, você tem o meu amor no fim das contas... Eu me perdi de novo... Se um dia eu me achar, quando eu me achar, sua mão vai voltar para a minha mão...
Ou isso é mais uma ilusão. Ou não. Ou sim. 

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