sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Carta ao Silêncio

Em silêncio. Em silêncio meu caro anjo... Estou pensando, pensando, pensando - quase chegando lá. Hoje eu amanheci e me perguntei "O que será de hoje?", meu pensamento me disse "Em silêncio. Eu não quero palavras de consolo, eu não quero afagos... Eu quero o silêncio, o êxtase do silêncio profundo."
Quis procurar o sentido de hoje, caro anjo e tudo o que sinto é um silêncio avassalador. O que será que se passa em minha face hoje? Talvez eu já tenha chegado ao ponto do silêncio em que as pessoas me olham e não sabem dizer ao certo se sou jovem ou velha, se estou feliz ou triste, mas saberiam que estou em silêncio, aquele calar profundo da alma.
Eu estou passando pelas calçadas, é tão frio aqui... Não percebi, caro anjo, o que foi que realmente me levou ao silêncio. Ah. Lembrei. Sim, sim... Tolice - sorrio para mim torto no canto da boca. Meus olhos estão marejados? Não. Então posso ser honesta comigo mesma e contigo anjo, até com você alma distante. Pois digo, o silêncio é uma conseqüência ou uma razão ou qualquer ponto alto de reflexão. Do amor? Sim... Amor de quem? Do meu amor. E a pergunta última:  por quem? Por você.
Olhe meus olhos anjo, eles também indicam um silêncio sentido, mais concentrado e até mais bonito - chega a serem tons estranhos de castanho claro e verde, mistura silenciosa. Então, foi o amor que me fez tomar esse rumo... Engraçado meu anjo, eu sinto falta, mas tanta falta que parece haver uma mão invisível que atravessa meu peito e aperta meu coração, prende meus pulmões me deixando sem ar e em seguida, despe minha alma tocando na ferida profunda lá dentro da essência. Eu emudeci.
Vou te contar como. De tanto amar e de tanto amor, acho que devo ter enlouquecido, mas tudo isso é estranho, meu anjo. Estranho por que não sei dizer ao certo se é sábio ser sã ou se é idiotice ser sã. Entende? Não? Nem eu. Eu me perguntei o que era o amor, não obtive resposta; é mais óbvio que o céu amanhecer com o sol e, no entanto, eu não sei descrevê-lo, mas sinto-o vivo, bem aqui dentro.
Tem uma coisa que me deixa perturbada... Eu estou ferida e que me deixou convalescente foi o amor - tudo culpa dele, é por isso que ando calada. Mas se o amor é tão perigoso assim, não deveria andar às cegas e solto por aí. Concordo. E acredita que eu tentei avisar a todo mundo?
Pois é... É aí que mora a perturbação, vou te contar: eu andei avisando a todo mundo que o amor é perigoso e que todos devem ficar distantes dele. É tão letal que parece que vem no vento e inunda seu coração, depois vai embora e você fica sem nada nas mãos, apenas esfacelado por dentro. O amor muda suas concepções, te deixa idiotamente feliz, igual às crianças; é quando você menos espera que ele se vai e te rouba tudo: o ar, a razão, a saúde, a alma e seu coração. Eu afirmo e digo! Não se envolvam com o amor por que ele é tão bom que te enfeitiça, te envolve, embaralha sua mente e suas ideias. Te deixa em choque de emoções tão profundas que seu coração quase não bate de tão pesado.
O amor é tão lindo que faz qualquer um que lute contra ele se enlaçar cada vez mais em suas teias por puro prazer. O amor é tão bom que te faz entrar em contradição consigo mesmo e se perder no que disse...
Eu acabei de me perder agora. Vê anjo? Qualquer um olharia para mim e diria que sou uma louca, posso até me visualizar no meio do nada, falando para uma multidão de ninguém que o amor é proibido e que no fim das contas, todos podem usar e abusar dele. Engraçado, de fato eu estou no meio do nada, olhando para o céu e contemplando todo o paradoxo de mim mesma, do amor, das cores e o que me levou ao silêncio profundo...
É que eu também não tenho mais nada a dizer - e tenho, mas há algo que me faz calar, é ele mesmo: o amor. É por que, é por que, é por que...
Eu não sei. É por que ficou na ponta da língua e não sai mais explicação. É por que eu não tenho mais explicação. É por que eu calei.... E ainda continuo falando. É por que mesmo se eu calar a língua meu coração fala, meus olhos falam...
Anjo! Eu me perdi! Isso tudo está tão confuso, caótico... Mas também foi o silêncio, eu o encontrei em algum lugar. Onde mesmo? Ah, sim de dentro do eu de hoje e hoje eu sou eu mesma de algum modo. Me ajude anjo, estou me perdendo no silêncio e quase não sei o que falo. O que era mesmo? Não, hoje eu não sou eu, sou o silêncio em pessoa - ou sempre fui assim? Mas por que? É só um tantão assim de amor? É apenas eu que perdi-me?
Não tem sentido, são palavras avulsas, pedaços de emoções, meu desabafo, meu amor, o meu amor... Você, meu amor... Você. O que ando tentando construir é o pensamento do silêncio causado pelo sabor meio amargo do amor, está tudo solto, tudo estranho, embaralhado - eu estou desmontada.
O silêncio... Psiu.... Não fale. Fique aí. Me contemple... Eu também estou olhando para você; me vejo em você; você se vê em mim? Sim, vejo a face silenciosa.
Meu amor, eu não quis me entregar, mas me tragaram  você me tragou, toque meu rosto e me reascenda. Eu emudeci...
Hoje eu emudeci e ão tenho nenhuma mão na minha para me puxar desse silêncio todo, estou sendo esmagada pelo peso silenciador do nada! O nada... Você... Não, nada. Eu te amo. Quem? Você. Onde? Bem aqui; meu coração  é uma imagem multifacetada que traz teu rosto em cada parte e reflete-o em toda a minha alma e isso me deixa muda. 
Estou te contemplando, adormecendo e contemplando... Eu fui ao campo... Te contemplando... Dormindo...
Silêncio. Eu te amo.

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