terça-feira, 15 de junho de 2010

Monólogo da Saudade

Eu sinto uma grande saudade: daquelas que doem fundo, entorpecem a alma e cobrem os olhos de lágrimas. Sinto aquela saudade cortando por dentro e quando o sangue escorre devagarinho, ela vai lambendo mansamente os fios vermelhos que rolam a cada grande corte. Percorre-me aquela saudade venenosa que imprime seu fel no meu íntimo lacerando-me até as vísceras e fazendo meu estômago embrulhar; esse veneno que faz a boca amargar e os olhos se encharcarem d´água, que me faz ficar de joelhos e colocar as mãos na cabeça para que ela não exploda.
Eu sinto a saudade ruim, porém a boa existe também; aquela dor doce que saboreio lentamente como o vinho que desce delicadamente deixando o doce da uva e queimando com a crueldade do álcool, ao mesmo tempo que trazem-me lembranças, impressões do toque, carícias, lábios, beijos. Então eu abro os olhos e toco o nada onde você desmaterializa-se instantaneamente
A sutileza da saudade silenciosa vem quando menos se espera: a concentração foge e eu me afogo no mar de recordações sem perceber. Em silêncio. Em êxtase. Pouco a pouco os músculos vão adormecendo e somente a mente fervilha me fazendo saborear cada momento de ilusão precioso, onde absorta, crio as minhas próprias cenas, meus filmes, meus devaneios.
A minha saudade... dói no peito, mas é preciosa por que me indica à palavra mágica: amor. Em verdade, não vos digo, digo a mim mesma que amo sem pavor de sofrimentos, de dores ou saudades. Amo por que a mim foi dada a capacidade de amar e a saudade me faz refletir no quanto já estou profunda ,quando decidi ouvir a voz que me mandava mergulhar daquela grande ponte de olhos fechados.
Ah...! A saudade! É tão antagônica! Tão previsível e tão sem perspectivas de previsão! É tão bela e terrível que me deixa estática no lugar com os calafrios maltratando tanto o meu estômago. Saudade... vem no pacote do amor. Preço justo, aceitei de bom grado.
O que eu não pagaria para ter? O que não pagaria para ser acorrentada nos pés desse amor? Qual louca eu seria se não sentisse espasmos de alegria ao ter o próprio amor como composição mestra do meu corpo físico e espiritual?
Saudade... quase ninguém tem...
Um sentimento multifacetado, chicoteia a carne e deixa belas cicatrizes impressas. A saudade é uma serpente venenosa, porém sedutora, atrai-me e é tão sensual que minhas pernas tremem sem suportar o meu próprio peso. Dá-me saudade em doses nada homeopáticas, pois só assim, o amor também vem junto.  Entreguei-me e coloquei os grilhões...
Assim como sabe ser cruel, a saudade sabe ser gentil, ela afaga a face, beija os lábios e fecha o meu corpo em um abraço. Todos os dias ela vem até mim arranca pedaços enormes do meu coração e depois os devolve para fazer com que eu sofra da mesma dor todos os dias.
Para a saudade não existe farmácia, nem ervas. Não se cura com oração, nem fazendo transplante do coração; então, como se mata a saudade?
Muito simples - ou talvez não- apenas o ser que provocou tal enfermidade amorosa na alma pode exercer o milagre da cura do saudosismo em gestos simples e com overdoses de amor. Somente uma pessoa pode ser designada para tarefa tão nobre: VOCÊ.
Portanto, querido anjo, tens o aval para matar a minha saudade com tudo o que tens, toma-me para ti, enrosque-se a mim e leva-me para dentro de ti que é o meu lar, com tuas mãos benignas abre meu peito e descobre o tumor que fere meu coração, sorria e com o calor de teu sorriso queima-o. Isso deixará cicatrizes que significarão a tua marca de cirurgia e tatuagem para sempre na minha alma.

2 comentários:

  1. Quando minha alma se encontra entorpecida pela saudade, eu busco encontrar um pouco de paz no horizonte, e ficar pensando o que alguém estaria fazendo agora, será que o mesmo que eu? As vezes funciona, outras só piora as coisas. Mas o que conforta mesmo é reencontrar o autor dessa saudade vezes doce, vezes amarga e descontar toda a dor da saudade em um abraço que as vezes parece me levar a um universo diferente.

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