quinta-feira, 27 de maio de 2010

Olhar de um antigo amor


Quando caminho e penso no rio que se estende nessa imensidão, pergunto-me onde reside este meu coração. Será que ele voou para longe? Em que mãos ele se entregou? Será que foi nas mãos do amor ou da ilusão?
Foram nas mãos do amor. Na verdade meu coração estava com você.
Afoguei-me na dúvida quando achei que não fosse o momento certo; mas não há momento certo para amar; até parece que fui resgatada de algum lugar e de repente fiquei sóbria. Ou acho que estava sóbria. Na verdade eu me afundei numa overdose de amor incurável na linha reta daquele olhar, e era um olhar azul de paz, como num dia de sol e céu aberto onde as nuvens passeiam lentamente. Transpirava esperança.
Eu te olhava todos os dias de mansinho, como quem não queria nada. Realmente eu não queria nada. Mas alguma coisa acontecia dentro de mim, que explodia da forma mais gostosa possível. É assim que age o amor? A gente gosta sem saber no início e depois que o tempo vai passando é que vamos descobrindo a realidade...
Mas a história era outra. Era exatamente isso o que eu não percebia, o quanto já te amava três segundos depois que sustentei seu olhar, num certo encontro ingênuo de amigos. Uma roda, bastante gente, música e eu só via você ali, com aquela beleza estrondosa e me chamava a atenção mais do que qualquer outra coisa. O mais engraçado é que eu nem percebia que só sua presença fazia com que eu te dedicasse os melhores olhares. “Que estranho.” Pensava comigo mesma...
O problema é que te sentia cada vez mais comum e mais familiar. Então quem era você? E porque eu tive a plena sensação de que já sabia quem era você? Pouco a pouco era mais fácil chegar perto; que necessidade terrível era essa? Fazia-te perguntas costumeiras e não deixava transparecer minha empolgação. Será que eu conseguia? Tive a ligeira impressão que você me olhava com a mesma força; será que seria burrice ou certeza dizer para mim mesma que você também sentia o mesmo? Aquela sensação de “já te vi em algum lugar”? Seria ilusão eu admitir? Não. Mas me deixei levar...
Sinceramente, não sei. Mas a noite rendeu e logo passou naquele átimo detestável, quando só queríamos prolongar ainda mais o céu na terra. Eu fui embora com uma intuição que em breve te veria de novo; e assim meu coração feiticeiro acertou em cheio a predição. Já mantínhamos certo contato e com o passar do tempo, sentiamo-nos com mais intimidade. Pequenos encontros, passeios, conversas longas e tudo o que sentia era grande e lindo demais para dizer que éramos somente duas pessoas com muitos pontos em comum. Acreditei que era coisa de vidas passadas. E se fosse?
Os dias e o tempo arrastavam-se lentamente e nós saboreávamos aquela tensão amorosa de cada abraço longo, dos olhares sustentados como se fossem pontes de concreto, dos beijos no rosto e do toque sutil das mãos que encontravam-se sem querer. Parecia que várias correntes elétricas percorriam meu corpo. “O que era isso?”. Você sempre me surpreendia com mensagens, e se vinha visitar-me automaticamente eu me transformava numa espécie de luz gigante e a força do meu sorriso me denunciava.
Nunca pensei muito em amores e nem rotulava o que sentia por você. Eu nem esperava encontrar alguém e quando te achei, nem me dei conta que já te amava e que você me completava. Engraçado. Até parecia cena de filme: encontro de olhares e finalmente... Um grande amor! Nunca achei que tivesse esta sorte, até te encontrar.
Interessante é que foi tão óbvio que ignorei completamente a possibilidade. Por isso era fácil conviver contigo todos os dias porque por mais que te amasse sabia que era recíproco e morrer sabendo que você me amava era morrer feliz.
As nossas vidas (nesses termos amigáveis, não como um casal) iam bem. Ao menos eu achava que sim. Podíamos conversar e trocar olhares profundamente apaixonados por um bom tempo, que simplesmente eu maquiava aquilo, achando que era natural e que todos os que tinham alguém como eu tenho você, sentiam a mesma coisa! Pronto! Simples assim! Era normal. Era normal? Ser amigo é assim? Eu não conhecia o amor e por nunca sentir o que sentia, achava que era natural ser amiga de alguém assim.
Na verdade eu queria me enganar, que tola. E passei mesmo muito tempo me enganando até que algum anjo do amor se cansou da minha cegueira amorosa anormal e decidiu plantar em você certa idéia. Era mais um dia normal, com as mesmas tarefas de sempre para fazer, até que senti a sua necessidade de conversar comigo. Encontramo-nos e você agia estranhamente como se quisesse falar, mas o medo não deixava.
“Medo de que?” Eu pensava e ficava nervosa... Foram seus olhos que denunciaram toda a sua vontade de amor ali. Eu sorri aliviada, mas não pensava; agia instintivamente. Eu nunca deixei meu coração tomar conta de mim e naquele dia só ele falava; aos poucos deduzia a história no silêncio da voz. Os olhos. Você fala com os olhos.
“Eu te amo.” Era isso que saiu da sua boca.
Espetáculos infatigáveis tomavam-me, as fadas saíam das flores, os anjos entoavam canções e o ar perfumava-se com fragrâncias que eu nunca havia experimentado. Tudo tinha novos tons de cor... Perdi a habilidade de respirar, de andar e falar. Eu nem pensava... Mas processava o que você havia dito.
Não soube bem o que fazer, mas é bobagem. Em poucos segundos a minha boca estava colada a sua, como era para ter sido desde o início. Mas não foi só um beijo, foi a materialização mais sublime de todo o teor amoroso que nossas almas guardavam há tanto tempo. Foi a poesia e o fogo da uma paixão profunda, enraizada desde os primórdios dos primeiros seres humanos que amaram. Seus lábios percorriam suavemente os meus lábios, num encaixe mágico e delicadamente os meus moldes foram perfeitos para você; sua boca pedia com necessidade, com vontade e um vício dali formou-se. Finalmente o grito de socorro havia se calado na minha garganta quando as nossas respirações tornaram-se únicas e nossos corpos uniram-se no laço daquele abraço.
"Eu sou sua". Foi o que pensei quando te olhei e te desejei com tanta força. Eu te amo. Te amei durante todos os dias, porém como ainda era desconhecido para mim, o amor me dava medo. Me afastava querendo ficar perto; te repelia e te tragava. Na verdade você me induzia, me enfeitiçava e eu deixava. Era difícil conviver com tudo aquilo, te ver e ter medo...
Um dia, o gelo cobriu meu corpo quando me dei conta que poderia te perder. Então eu corria como uma louca, procurando-te em todas as direções, mesmo que os meu pulmões explodissem, ainda continuaria correndo e procurando... até achar... e me achar... Foi quando você me pegou no meio do caminho dizendo que no teu espaço havia lugar para mim, me tocou e em seguida fui levada pelo furacão da emoção boa da saudade misturada ao amor... Você me beijou e senti que toda a primavera havia voltado para nunca mais sair da minha vida...