terça-feira, 30 de março de 2010

Último Inverno




Foi aqui, exatamente aqui onde eu nasci, cresci e... Morri! Sim, esta é a minha lápide, onde jazem os meus restos mortais. Sinto-me livre! Renascida, curada e em paz; deixe que eu conte a minha trágica história:
Nasci por aqui mesmo, naquela casinha acolá de madeira vermelha com uma árvore grande ao lado e um balanço. Eu adorava aquele balanço quando menina! Meus pais, humildes e de bom coração criaram-me com lições de simplicidade e com a verdadeira moral de um ser humano. Meu pai foi um nobre homem, estatura alta, cabelo castanhos aos ombros e olhos azuis que refletiam a sua bondade interior. Minha mãe, um anjo de cabelos loiros, era quase da altura de meu pai, seus olhos verdes expressavam a pureza de seu ser. Era linda... Eu lembro bem dos dois.
Foi naqueles campos verdes que eu brincava e me sentia verdadeiramente feliz. Eu tinha um amigo, seu nome era Johan. Fomos criados juntos, nossas mães eram amigas inseparáveis. Johan era um ano mais velho que eu. Parceiro das minhas travessuras, nós costumávamos fazer tudo juntos, nossos passeios eqüestres pela manhã, os banhos no rio, o nosso esconderijo secreto. Ah! Nosso esconderijo era uma velha e grande árvore que ficava na floresta de carvalhos, ela era oca. Sempre que queríamos nos esconder de nossas mães, nós íamos para lá. Era lá também que passávamos horas grudados brincando, nós éramos grandes amigos, e isso não se deve negar.
Mas foi no nosso esconderijo, que algo começou. Houve um dia em que Johan e eu fomos à nossa árvore, nós brincávamos e por alguns segundos ele olhou para mim com a força de seus olhos azuis; meu coração, por algum motivo desmoronou e calafrios arrebataram-me. Eu não sabia, mas as armadilhas da paixão estavam descortinando-se em mim.
O tempo passou, e nós fortalecemos algo. Nem sabíamos o que era, mas entendíamos que não podíamos nos separar. Eu tinha 14 anos e ele 15, a nossa pureza imutável ainda nos fazia sentir vontade das brincadeiras. Lá, no nosso esconderijo acontecera algo que mudou as nossas vidas. Sentei-me numa grossa raiz enquanto ele colhia margaridas, pois sempre amou as flores. Ao terminar, foi até mim com seus olhos avassaladores e disse-me “São para ti”, sem ar eu as aceitei. Johan sentou ao meu lado e conversamos por um longo tempo... Olhamo-nos e nos calamos por um tempo que pareceu a eternidade. Seu rosto estava mais perto quando seus lábios apertaram-se contra os meus. Eu me deixei levar. Não sabia o que estava acontecendo comigo, mas meu coração saltava e parecia querer explodir.
Aos gritos de minha mãe, nos assustamos, eu respondi logo sem desviar o olhar, nós rimos e ele abraçou-me, “O teu cheiro é mais embriagante para mim do que seria o vinho para um boêmio”, ao dizer isto eu sorri e o beijei de leve nos lábios. Voltamos antes que minha mãe chamasse outra vez.
Depois daquele dia, nunca mais eu fui a mesma e nem Johan. Se já éramos inseparáveis era agora que não nos desgrudávamos. Nosso amor era secreto, nossos encontros eram sempre naquela árvore oca, passávamos quase o tempo todo lá. Era lá também que jurávamos as mais profundas promessas de nossa paixão irrevogável. Nós costumávamos ficar muito tempo em silêncio nos encarando. Quando ele me beijava o mundo não existia, entre os braços dele não havia lugar mais seguro. Um dia Johan me surpreendeu com um colar que ele mesmo fez, tinha nossos nomes escritos num pingente em forma de coração. Eu guardaria aquilo para o resto de meus dias.
Quando eu tinha 16 anos e Johan 17, decidimos que deveríamos revelar à nossas famílias o que se passava entre nós; foi como se eles já esperassem há muito tempo que nós verbalizássemos o que já sabiam. Para mim, não poderia ser melhor.
Eu vivi intensamente todos os dias ao lado dele, eu tinha certeza de muitas coisas, mas a minha maior convicção era que eu já não poderia viver mais sem o Johan. São esses espetáculos infatigáveis da minha juventude que mais prezei as lembranças mais doces que guardei.
Nada dura para sempre. Não há matéria infinita, nem rocha que viva mil anos que um dia deixe de existir, assim como são os corpos vivos. A vida é efêmera, o homem pura matéria de dor ou alegria passa mais cedo ou mais tarde, não importa, a morte sempre vem, doce ou cruel ela chega para todos.
Foi numa tarde de inverno. Tudo estava belo, a floresta parecia encantada e toda aquela natureza que nos rodeava nos proporcionava espetáculos estonteantes. Eu fui à casa de Johan para que fôssemos passear, o que encontrei foram seus pais em agonia; Johan estava enfermo, uma doença desconhecida atacava-o. "Chamarei o curandeiro imediatamente" foi o que disse Jacob o pai dele, fiquei com D. Carmem (mãe do Johan) auxiliando-a em tudo o que ela precisasse. Meu pobre Johan dormia como um anjo esculpido em mármore ajoelhei-me diante seu leito e peguei sua mão. Meus soluços eram tudo o que se ouvia na melancolia do silêncio, D. Carmem levantou-me e abraçou-me forte, "Não se desespere! Ele melhorará!". A noite se aproximava quando Jacob chegou com um velho curandeiro e eles entraram no quarto. Jacob deixou que o velho curandeiro ficasse a sós com meu querido Johan. Meus pais vieram dar apoio a família dele, nós ficamos lá rezando e sufocando com a nossa angústia.
A madrugada avançava e de cansaço eu adormeci, minha mãe me acordou com doçura e uma tristeza misturava-se as suas palavras "Filha acorde, pois há algo que preciso contar-te. Você precisa entender..." ela não conseguiu mais falar, apenas abraçou-me como se temesse que eu desaparecesse se ela continuasse a falar. "Johan... O Johan meu bem... E-ele, foi-se..." Naquele momento era como se eu estivesse sido atingida por uma biga enorme; algo se rasgou dentro de mim e um buraco enorme tomava conta do lugar onde antes havia um coração. Não, eu não me sentia mais viva. Não era somente o fato de tê-lo perdido, era a desgraça de ter perdido o maior e mais verdadeiro amor da minha vida, de ter perdido toda a felicidade que eu sonhei em ter ao lado dele. Eu não só perdi o Johan, como perdi a vida no momento em que ele se foi.
Fui até o seu quarto, ninguém podia me impedir de vê-lo, ninguém. Ele estava lá frio, imóvel mais com a mesma beleza magnética de sempre. Cai em prantos, não poderia fazer mais nada. Eu chorei e expus a minha dor. Sei que desmaiei, e de nada mais recordo-me.
Ao acordar, já o haviam levado ao seu leito de flores; não houve um só dia em que eu não tivesse deixado de ir ao seu jazigo deixar as suas margaridas e implorar para que me levasse. Incontáveis vezes meu pai (ou minha mãe) encontraram-me por lá dormindo depois de chorar e chorar. Eu não agüentava a perda de Johan, era uma tortura interminável.
Eu tinha 17 anos, quando fui encontrada desmaiada por meu pai. Ele me levou para o quarto, ardendo em febre. O curandeiro veio logo, estava nas redondezas quando meu pai correu até ele e implorou por ajuda. Nos meus delírios, o nome de Johan era dito com freqüência, minha pobre mãe estava desesperada! Jacob e D. Carmem vieram em apoio aos meus pais, temendo que eu tivesse o mesmo fim que Johan, e eu queria este fim.
Foi angustiante, a noite caiu e eu continuei no mesmo estado, o curandeiro fez de tudo, usou seus remédios naturais e sua experiência, mais de nada adianta quando a doença está na alma e não no corpo, não há quem possa curar. Eu não queria uma cura. Fora vão todo o trabalho do pobre velho... E eu padeci.
Meus pais e os pais de Johan ficaram desesperados, mas nada poderia ser feito. A morte foi muito gentil, eu o vi. Sim! Foi Johan quem pegou minha mão e me guiou para uma luz, eu estava do lado dele e curada. Era como se eu nunca houvesse sido ferida, como se eu não o tivesse perdido. Eu estava feliz.
Por Caroline Pessoa

quinta-feira, 25 de março de 2010

Além Da morte


Além da morte, o que me espera?
Deus? Ou um demônio?
Talvez nenhum e só meu anjo.
O que está além da morte?
Será a paz? Ou continuarei com a dor?
Deus vai me curar?
Ou será meu anjo que me salvará?
Depois da morte, eu precisarei ainda respirar?
Eu ainda me lembrarei da vida aqui?
Talvez.
Talvez eu encontre um lugar em paz
E por lá poderei mesmo continuar.
E aquele anjo? Virá também?
Será que depois da morte, o céu é sempre azul?
Será que por lá há sol?
Talvez Deus caminhe visitando e curando
Aqueles que como eu, sofreram tanto.
Além da morte deve haver algo que possa me ajudar
Deve haver alguém que possa ressuscitar
Este meu coração, que tanto sangra.
E o anjo? Ele também virá?
Talvez. Será ele que me levará? Talvez.
Agora os seus olhos me encaram com doçura
A minha vez chegou
Vejo-o caminhar até mim.
E um beijo. É assim que se morre?
Em breve descobrirei o que há além da morte.

domingo, 21 de março de 2010

A velha, a menina e o pirulito




Havia uma criança que dizia para uma velha que ela ainda podia correr e pular. A velha sorri e vê que pode fazer isso. Mas, também sabe que há um fator X que a deixa prostrada.
Até que a criança pega a mão da velha e sai puxando-a, a velha deixa cair ao chão a bengala e sai correndo. Ela cai e se machuca toda. Mas, a criança sorri e diz “Vamos! Tem um pirulito para nós no fim do caminho!” e sai puxando a velha de novo que sai correndo e sem perceber, ela está começando a se mover rapidamente. Cai e tropeça outras vezes, chora com as feridas e depois levanta, continua sendo puxada e se deixando puxar pela criança e vai reaprendendo a correr, até que não topa mais.
Lá no fim, a criança ganhou o pirulito. Mas, a velha não. A velha ganhou experiência ao passo que a criança cresceu e se tornou de vez, uma adolescente. Uma garota linda e esperta demais. A garota soltou o pirulito, pegou a mão da velha e disse “Agora, você subiu vários degraus de uma só vez”. A velha satisfeita percebia que suas pernas sararam e ela se tornava mais forte à medida que a garota amadurecia. A velha foi mudando para um estado mais jovial e a menina se tornando mais e mais velha, até que chegou a um ponto em que a menina se tornou velha e a velha se tornou menina. A velha que se tornou menina percebeu que amadureceu uma vida toda e percebeu também, que apesar de suas dores poderia continuar e a menina que se tornou velha, virou algo muito mais precioso que a experiência: o coração.
As duas passaram a ser intrínsecas e não mais se separaram, porque a velha que se tornou menina tinha um coração de menina que se tornou velho e ela amava com liberdade. Agora, só faltava voar.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Lady



Ela saía de casa para seus passeios eqüestres...

Tinha cabelos longos e era de um louro, cor-do-sol.

Vestia negro, sob o céu de pesadas nuvens,

Era lívida, de olhos mui claros, da cor do mel.

Virgem dos sonhos de Byron cavalgava na solidão, um belo corcel negro.

E quem seria essa tal criatura?

Não se sabe...

Ela já se foi...


Por Caroline Pessoa

quarta-feira, 17 de março de 2010

Monólogo de Amar Alguém


Gritei para mim mesma: socorre-me porque eu preciso de você! Socorre-me porque em mim falta um pedaço. Falta o seu pedaço e seus braços, teus lábios e o teu jasmim, tua voz no ouvido e eu morrendo de amor a cada vez que você sorrir e fizer meu relógio parar para eu só olhar para você.

Ah, meu amor só em sonhos eu vivo. No presente que me arranca saudades, nos versos que me arrancam lágrimas, nas músicas erradas que eu não deveria ouvir. No tempo certo em que você apareceu para mim e vou vivendo das fibras do meu coração pobre que, mutilado da lâmina da saudade tenta respirar me dando vida quando se lembra do teu rosto. Socorre-me em teus dias e em tuas noites, dá-me o que não preciso e o que nego, dá-me amor que é o que eu não quero, mas preciso para encher meus pulmões de ar.

Faça-me enxergar quem sou para você: se sou certa ou se sou errada; só me diga se lá fora é melhor do que aqui, se é melhor eu te deixar num porta-retrato ou se te levo no coração. Se paro e olho para trás ou se ando sem saber se os passos são certos.
Não sei quem te olha numa direção além, mas aquilo que nego é o que mais vale em mim. Posso não saber esconder, nem é meu dom representar: só você lê o que meus olhos dizem. Eu me vejo em você e ainda vejo as flores nas tuas mãos, sinto o perfume delas no teu corpo e em todo o lugar. No quarto, na cozinha e na casa toda.

Mas é bobagem, o perfume é seu.

Ainda não sei quantas vezes será preciso eu ouvir a mesma música repetidas vezes para te escrever algo e me perguntar para que serve a saudade: se é para me aproximar mais de você ou se é para mostrar tudo o que está estampado na minha cara. Para mim ainda não faz sentido, mas alguém me disse assim “E quem foi que disse que o amor faz sentido?”. Na verdade quanto mais se ama alguém mais ainda nada faz sentido, como não faz sentido eu escrever e me sentir tão menina em meus versos, nem o fato de eu me perder no tempo lembrando-me de você.

No arco-íris que eu pintei, sentada debaixo da árvore, eu imaginei o que veria depois que ele acabasse e se aquela estrada me levaria até você; sinto que posso atravessar o caminho das curvas fechadas e já me convenci que tenho mais amor do que medo e é por isso que me fez sentir coragem para ser eu de verdade, buscada dentro de mim e seguir meu rio e fazer com que ele deságüe no seu mar.

Onde busquei meu ser, descobri no íntimo deste meu eu complexo que todo o amor que estava guardado sob um selo foi rompido e deixado correr solto, serpenteando minha alma e fazendo brilhar ainda mais a minha luz. A minha guia me diz no sopro do vento que vou morrer por você ou vou me colar a ti como uma parte do quebra-cabeça.

Bom ou mau, certo ou errado eu quero ter você. Não sei julgar, isso não cabe a mim, mas toquei teu eu e não é para ser entendido por outras criaturas o que está pronto para ser rompido como se fosse o mar seguro apenas por uma grande tora. E o que é uma tora para um mar inteiro?

Que o tempo corra no tempo certo e não quando você estiver aqui. Não vou ser mais ou menos feliz, não vou recitar sem inspiração, não vou falar sem voz, não vou correr sem pernas, nem abraçar sem braços; agora entendo que eu não posso ficar sem você. Não vou sumir na chuva e nem chorar com o trovão, mas vou amar você com tudo o que tiver e repartir a minha vida que é o que tenho, vou fazer o convite no silêncio e você vai entender que os lábios quando calados são sinônimos de coração ardendo e o fogo queimando a garganta, preparando-se para não falar e deixar os olhos transbordarem o pedido do beijo desejado.

Ainda não sei bem como fazer para me mostrar para você de um jeito que seja eu, mas muito do passado já diz, muito do presente já grita e muito de mim diz que te amo de forma inconcebível para qualquer louco que queira analisar. Quando será que me tornei mulher? Quando será que deixei as cordas frouxas e me apaixonei com toda a violência da alma? Quando foi que eu deixei cair aquela lágrima que me denunciou para mim mesma? E a pergunta principal: por que eu te amei?

Posso até tentar seguir com isso explodindo no meu peito, ouvir o meu íntimo dizer todos os dias que te amo, escutar as mesmas músicas de amor, escrever versos e deixar o vinho que bebo encharcar meu coração e o deixar arder em todo meu corpo unindo-se a esta paixão e vou saber que se eu viver mil anos e perder a consciência, o que sinto não vai mudar e nem passar porque o que a consciência quer o peito não deixa. Eu quis cair no teu infinito e morrer sonhando, quis plantar a tua semente no meu canteiro e quis beber teu mel. Dei-te as minhas rosas e troquei minha paz por esse amor e é dele que me alimento.

Olhe para as estrelas porque elas escrevem minhas mensagens, leia a lua que ela disse quem é o motivo para o meu sorriso e viaje no cometa porque ele te levará até mim.

Por Caroline Pessoa

Império das águas



Da solidão e destes espaços em branco

Caminho e nada sinto.

A caneta não me deixa escrever

E a natureza não me inspira as poesias.

O tempo continua passando e

Ainda estou sentada aqui, observando

As águas que vem e que vão.

Águas escuras que levam um pouco de mim

Cada vez que as ondas quebram na praia.

Águas frias que representam a minha solidão.

Águas turvas iguais a minha confusão.

Imóvel neste lugar e ainda sim, lágrimas escorrem

Por meu rosto surrado e pálido.

Eu não enxergo mais um caminho,

Nem mesmo sei se ainda desejo enxergá-lo.

Por quanto tempo ainda viverei assim?

Os anjos não me escutam...

O silêncio rasgado dos céus debocha da minha agonia.

Neste pedaço oco da minha matéria, ainda vive a essência deste meu ser infeliz

Chamando pela gentileza das águas negras,

Clamando pelo doce beijo que irá levar-me

Até onde o nunca impera.


Por Caroline Pessoa