sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014



Ah!, se pudesse bater à tua porta, nessas horas de desejosa vontade. 
O que um querer nos faz? 
O que o gosto de um beijo não ainda provado, corrói os nervos e espezinha a alma! 
Ao menos, a poesia sai de meus lábios como se fosse chegar até a ti, 
Como meus braços e mãos em teu corpo 
Como o calor da minha pele à sua 
Como se fosse a tua imagem esculpida em minhas próprias formas - desenhada por mim, imaginando você.

Caroline Pessoa


Crudelíssima a distância! 
Deixa-me em tua ânsia...
Devora-me devagar... 
Cega-me as esperanças...
Deixa-me naufragar...

Caroline Pessoa

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

A Magreza

A magreza doía nos olhos de quem o olhasse. Era pontuda, ossuda e apática.  A magreza dele agia muito mais do que em seu alongado corpo esbranquiçado; ela estava em sua alma e em suas palavras. E mesmo que tentasse comer muito, o germe que residia dentro de si e em todos os poros, sugava-lhe as forças, as expressões. Os olhos do pobre esbugalhavam-se na face demarcadamente pálida.
Não poderia ser considerado feio, porém, nunca jamais belo. Ele era uma coisa que se mostrava por dentro, algo rasgado desde as entranhas até o que se via por fora. Era um ser pelo avesso e, até suas veias enrugadas eram magras. Sem nome, ele era um pedaço de massa e, mesmo magro, era pesado na superfície. Deixava sulcos profundos por onde pisava, não tinha muito jeito para a leveza. Era cansativo olhar para ele – ele que era tão magro que a própria fome não podia atingi-lo.
Suas mãos encarquilhavam-se não pelo tempo, mas por sua monstruosa inópia. Pela vida, não vivia, no entanto, perambulava seco, árido, faminto, ressequido de vontades e magro. Sua boca era uma cicatriz, ao invés de lábios. Seus olhos sem pupilas dilatas, não tinha cor – tinha magreza. Era, de súbito, um pedaço de coisa inócua que queria ser nefasto, mas que não provocava nada a não ser comiseração.
Por sua magreza. Pela falta de ser, não tinha expressões; era seco de sentimento. Pois, no solo de seu coração, não se plantava nada mais do que vermes. E os vermes da magreza nutriam-se de sua falta das coisas – estava putrefacto, contudo sempre muito, muito magro. As belezas etéreas nunca o atingiam, porque logo tornavam-se mortas, emaciadas. Não podia dizer que tinha uma pele, acreditava-se mais entende-lo que revestia-se através de uma couraça purulenta e forte. Enrugada, sem pelos que se caia sem vontade pelo corpo. Não se parecia com nada, nem com as pedras.
Queria apenas a fome que o mantinha no fio entre algo e nada. Queria, apenas, sua magreza que tornava-se doença e, logo, sua couraça. Permanecer comendo, comendo, comendo e morrendo de fome todos os dias. Sentia-se viúva negra, logo muito esquelética e medonha, logo muito ressequido, de natureza tépida, incontrolavelmente faminto pela vida, pelo seu eterno limbo de ser.

Por fim, jamais morreria de magreza mórbida. Morreria, antes, de uma fome jamais saciada – era a fome de si. 

sábado, 20 de abril de 2013

Inside





Alvo e pleno. De repente, um sono que não tinha mais fim e, depois... Depois a sublimação de si. Antes de qualquer coisa, era livre, tinha pernas, sentia a força física, o cheiro do ar. Antes do sono, sabia que era homem feito, alto e ruivo daqueles que usam barba cerrada e tem todo um charme intelectual. Era homem.
Então, um dia, em sua cama, aquele peso nos olhos transformou-se em inconsciência e ele não pôde relembrar-se de sua infância, como sempre pensou em fazê-lo. Não pôde relembrar dos rostos queridos ou ouvir as canções que mais gostava. Não podia, enfim, escrever um bilhete. Sua paralisia era de dentro para fora, no entanto, imaginava-se flutuante e feliz, porque quanto mais inconsciente e flutuante, mais aquela agudez que lacerava-lhe o peito diminuía até torna-lo escultural, tal qual seus poetas favoritos bem descreviam aqueles anjos marmóreos.
Mas nada daquela rigidez poderia acompanha-lo.
De um sonho, ele, consciência ainda humana, viajou em outro sonho de luzes que cegava-lhe metaforicamente. Ele sentia ser ora um pássaro, ora apenas uma mistura com o vento – lá ao longe é que ouvia gemidos, mas seguia e seguia e seguia... Como num sussurro.
Ele perpassava qualquer matéria, não havia nada mais suave que seu toque. Ao cair, deixava-se livre e destemido, limpo de qualquer sentimento terreno, era apenas queda livre do topo da montanha.
E braços, mãos e mantos o acomodavam como num abraço sem fim, atingindo-o não na pele, mas no ponto onde havia antes um coração. Havia uma mente que processava, mas o cérebro ficara para mais demonstrações. O próprio lugar em si era tenro e gentil, cheio e ao mesmo tempo vazio, sem densidade, sem paixões, sem gravidade – contudo, livre. Em cada pequeno espaço, havia uma presença que parecia ser algo tão vivo que quase podia tocar.
Depois eram só vozes, quase sem rostos que lhe mostravam sem mágica uma história, uma vida e muitas, muitas saudades que arrancavam pedaços de outros corações que ele sentia recordar cada um com mais e mais intensidade. O desespero o tornara menos fluido, porém, logo a mão invisível fez uma caridade em sua dor e a deixou dissipar-se até tomar a forma de uma rosa branca – já era oração.
Sobre si, tinha pouca memória de homem, de cor, de corpo. Sabia que agora era alma e coração em palavras e ações. Quanto mais percorria, mas queria ficar. Eles que não tinham nome que pudesse ser escutado e entendido, um rosto a ser decifrado apenas falavam para dentro da mente:
- Vai, que há caminho longo – diziam de qualquer lugar.
Ele, que nem nome queria, dizia:
- Voltar não consigo, é por demais doído.
Tudo o que ele sentiu sobre as últimas palavras, mas nunca as finais, era um sorriso.
- És o que és e nada mais. A cada obra, uma missão.
“Não tardarás...”. Era um pensamento vivo e sussurrado.

-

Cinco minutos.
Parada cardíaca, acidente cardiovascular, coma. Era ele toda uma extensão rígida, fria e bela no leito. Olhando de cima, conseguia ver todo seu eu como uma pintura, talvez até rápido borrão. E então...
- Um, dois, três – respiração boca-a-boca.
- Ainda não respira! Desfibrilador! – Gritava o médico. – Outra vez!
O som era doloroso.
- O perdemos... – dizia o médico. – Horário do óbito as 18:50... Você – interrompeu o monólogo numa voz cansada e vencida – chame a família.
Um vórtice o puxou e todas as sensações humanas eram dele novamente. Novamente, a paralisia. Antes o bipe era linear e sem interrupções. A sala ficou vazia, a aparelhagem desligada, apenas uma presença coberta completamente por um lençol. Lá fora, vozes abafadas.
- ... Sentimos por sua perda...
Não era sonho.
- ... A parada cardíaca foi fulminante... Seguido de acidente cardiovascular...

-

De repente, voltara a respirar num surto. O susto arregalara seus olhos e o fizera enxergar sua nudez, seu corpo, sua palidez e suas dores. Voltara a ser homem.
George, 32 anos, publicitário.
E o sonho que tivera o fizera acordar de supetão. Tocou-se, beliscou-se, pulou da cama, saltou e até fez umas flexões. Olhou de lado e dissolveram-se as paredes do hospital, as vozes e o desfibrilador doloroso. Era George e, para ter certeza, disse seu nome em voz alta.
- George! Que Deus me livre!
George, olhando o relógio já cansado e com severas olheiras, fechou o livro sobre experiências espirituais e voltou a dormir, porque amanhã era outro dia de trabalho.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

sábado, 24 de novembro de 2012

 
"Quando a areia movimentou-se pela primeira vez à minha mente a brisa repousava. O pensamento nada construía a não ser cotidianidades perversas. As línguas que se moviam me soavam parecidas com prosas peculiares. Os dias nada mais eram que migalhas que o Senhor distribuía por causa do tédio e piedade divina; e o aproveitamento era feito com má vontade apenas para contribuir com o andamento natural.
Pela primeira vez eu sentia algo desigual, à minha vida o óbvio ainda imperava em contínuos segundos métricos, porém, os ponteiros pareciam desregular-se grau a grau. O sopro chegou estranhamente no mato que cercava minha ilha de maneira desigual aos outros passados. Algo sobrenatural se sucedia quando o anum soou seu grito.
O café ainda era o mesmo , e as expressões familiares. Nada de estranho se passava no covil. Aliás, todas as batas eram iguais, tirando as novas com almas recém-chegadas. Isso era apenas mais um bando com crenças afloradas e cabeças confusas. Passaram rapidamente pelo corredor com olhos girando pelas telas nas paredes. Em pouco tempo pude ver o céu limpo entre todas as nuvens negras.
Passadas algumas horas fui ao salão principal acompanhar a cerimônia de apresentação do novo grupo. Ele era maior do que eu tinha notado. Talvez a distração me tivesse cegado por alguns instantes. Enquanto a cerimônia se desenrolava, minha visão buscava o céu que tinha avistado mais cedo. Não demorou muito até ouví-la apresentar-se como Maria. Sabia que os olhos de céu não me eram estranhos. Com certeza era a própria em minha frente, naquele momento me tornava mais devota."
 
Por Ronaldo Santos

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Crônica de Um Príncipe ao Pequeno Príncipe.


Desde que eu sai da rota dos planetas estranhos, percebi que eu tenho andado muito observando as muitas formas de vida e, principalmente, como essas formas se relacionam. É engraçado, por que em todas eu vejo o quanto o amor é comum - não muda nada, a não ser a forma como eles chamam isso.
E eu senti que tenho ficado mais velho a medida que os anos-luz se passam. Eu não sou mais apaixonado pela Rosa. E também não tenho mais o mesmo apreço por brincadeiras - além do mais, meu pensamento têm amadurecido exponencialmente, de modo que até a forma como falo é diferente. Eu cresci.
E à medida que tenho evoluído, percebo que por mais que as formas de vida exponham o sublime do amor, naquele estranho lugar que é a Terra, as coisas funcionam as avessas - e aquilo me assusta.
Mas eu carreguei lições que mudaram ainda mais as minhas concepções sobre quem sou, por que sou, para onde vou e por que jamais devo me sentir sozinho. E eu não estou. De Pequeno sou apenas Um Príncipe - de princípios. Não que nunca os tivesse, mas você sabe, seja lá quem for, que desde pequeno minha inocência têm me permitido ver o mundo com olhos de santidade e, hoje, aos dezessete que completo por insistência, tenho percebido que meus olhos se obrigam a enxergá-lo de duas formas: com a realidade que ele me joga na cara; e com a inocência que se resguarda em meu coração.
Se sou deprimido? Oh, não. Eu sou mais alegre do que pensas. Mas é por que quando reflito, little boy, fico distraído lá em cima, nas nuvens. No lugar invisível que somente eu enxergo. E há uma coisa que constatei: não quero ser um homem.  Eu quero ser Um Príncipe que não se saiba definir onde, nem como, nem porquê. Mas Um Príncipe que se reconhece. Mas eu sou homem de outras formas, no agir, no pensar e principalmente, na essência.
E sim, claro que quero prosseguir pelo espaço, por que ele é tão gigante que não cabe em meus olhos. Tenho muito a explorar, a descobrir ainda. A melhor lição que você me ensinou é que seja lá o que for que eu faça, para onde eu vá, seja lá quem for que eu preciso cuidar eu preciso do meu amor. Eu preciso não ter vergonha dele. E preciso usá-lo, a não ser que eu queira ser igual a maior parte dos habitantes da terra - e isso eu não quero mesmo.
Foi em você Pequeno Príncipe, que eu, Um Príncipe, compreendi o valor que são as pessoas ou as formas de vida e muito mais: o sentido da amizade, da lealdade, do amor, da inocência, da simplicidade, da bondade... Onde mais, a não ser sendo criança, aprenderia tanto?
Vou-me embora Pequeno. Vou-me embora, por que depois de mais velho fiquei mais apressado. Porém, jamais esquecido. Só estou experimentando o exagero da correria - lembra, eu posso controlar isso. Mas mais tarde. Estou viajando Pequeno. Vê se mantém essa consciência acesa em mim e não me deixe esquecê-lo.
Até um dia, ou seja, até a próxima reflexão que não tardará.